Medo, coragem e cigarros eletrônicos
Existem dois tipos de pessoas no mundo: as que buscam suas próprias, entendendo que não há além nessa vida que si mesmo e as suas necessidades, e existem aquelas que entendem que sua existência é maior que suas crenças idiotas limitadas a 10% da sua capacidade cerebral.
Talvez essa segunda seja considerada burra. Como alguém pode escolher isso? É tão mais fácil fazer apenas o seu. Dá preguiça expandir a mente, dá preguiça demais querer mudar as coisas. É perigoso e esse perigo não compensa. Pra quê isso, meu Deus?
Saiba: é difícil pra mim também ter que ouvir esses textões me falando sobre o que é a vida, o que são as pessoas e qual minha missão nesse mundo. E no meio disso, sem saber, eu vou fazendo aquilo que meu coração manda e eu te confesso: eu estou com muito medo.
Eu tenho medo do que a minha pseudo coragem possa me causar. Eu sei que ela não vai machucar ninguém, nem ferir ninguém. Eu sei que ela nunca vai me deixar ter motivos pra estar em uma prisão, porque ela entende que não é maltratando que devemos lutar. Devemos lutar com a arte, a palavra, a bondade… Mas às vezes, para chegarmos nesses lugares, teremos que passar por outros — e esses outros talvez custem muito caro pra mim.
De toda forma, eu não poderia fazer outra coisa se não fazer isso, porque chegou um momento em que eu já não influenciava aqui. Eu li esse texto pra vocês muito antes de chegar. Óbvio, eu escrevi ele pra vocês muito antes de chegar aqui. Nesse momento me perguntei se isso já pode ter acontecido antes e pasmem: não é pra dizer que eu não sou culpada.
Sim, a vigilância sanitária foi até minha loja e sim, eles encontraram cigarros eletrônicos e essência para vapes. Eu os entreguei tudo e disse que sabia que aquilo era errado. Eu disse que já tinha decidido tirar, porém eu fui irresponsável e talvez a vida estivesse me cobrando tanto naquele momento que eu não parei pra me importar verdadeiramente com as pessoas que estavam se prejudicando com a minha prática.
Apesar de eu ter um conceito muito claro de que cada um se mata da forma que quer — pois a definição do veneno é a dose —, assim como penso que até o amor pode ser uma droga, a legislação brasileira decidiu que isso não era mais permitido e eu precisava cumprir. Eu sou uma cidadã preocupada em cumprir as leis.
Eu respeito pedestres no trânsito, eu cumpro a mudança de faixa na pista, eu dou sinal sempre que vou dobrar… Eu me preocupo em cumprir os principais limites legais desse país. Eu sou uma cidadã com responsabilidade social. Eu sou um ser humano bom. Eu estou muito acima da média das pessoas que conheço e juro por minha irmã, que é o amor da minha vida, é MUITO DIFÍCIL pra mim assumir isso, mas é a verdade.
Eu não precisava e eu não deveria mais estar vendendo aquilo. Eu tinha acabado de assistir a um documentário que falava sobre o quanto esta merda estava prejudicando as pessoas, as crianças, os adolescentes. Por que eu não parei?
Eu não me odeio por ter recebido a vigilância e eles terem levado uma média de 16 mil reais meus em mercadoria, mas eu fico muito decepcionada comigo por não ter feito isso antes. Eu sou uma pessoa boa, eu não precisava estar aqui. Mas que fique claro: eu não disse que não merecia. Eu disse que não precisava. Porque eu deveria ter tomado uma decisão diferente. E eu tinha tudo pra ter tomado essa decisão, mas eu não tomei.
Talvez porque, naquele momento, eu era a pessoa que só pensava em mim e nem percebia. Talvez eu não tinha ainda compreendido. Eu confesso que não sei, mas eu fiz.
E eu sinto muito. Aqui não é um lugar de pedir desculpas, né? Mas eu peço desculpas por não ter percebido antes e não ter parado de causar mal, mesmo que indiretamente, a tantas crianças e adolescentes.
Eu era recém-adulta quando comecei a fumar isso também. Eu comecei a ter problemas de estômago e, desde lá, eu tenho esse problema. Meu corpo não suporta aquela fumaça e ele rejeita: eu vomito sempre que tento usar. Eu poderia dizer que isso foi apenas um milagre e talvez algum dia eu tenha coragem de ir a um médico e falar sobre isso, pra ver se existe algo de errado comigo em decorrência desse pequeno e “inofensivo” cigarro eletrônico.
Uma parte de mim se pergunta sobre o fato de eu vender álcool e nicotina — as nossas drogas legalizadas — e eu ouso dizer que chegamos aqui no ponto em que entendemos o quanto a lei molda os sentimentos de uma pessoa. Existem coisas que deixamos de sentir por nunca termos ouvido falar que aquilo deveria ser sentido, porque esses dois itens não são pautas de discussões públicas. Quem é que vai querer burocracia nos itens que mais provocam alucinações sociais?
Falo “alucinações” no sentido de causar coisas diferentes, confusas, exageradas, proibidas, prejudiciais… E acho que é o que pode responder a essa pergunta, porque confesso que é até estranho pra mim não sentir o mesmo sobre tudo. Será que o vendedor de cocaína se sente mal? Não importa, né? Esse aqui é sobre mim.
Eu me arrependo. Eu me arrependo a ponto de me expor assim, da forma mais humilde possível, correndo risco de perder meu réu primário — item muito importante pra se ter nos dias de hoje —, mas confiando que existem mais pessoas como eu e que o senhor é uma delas. Pessoas que conseguem ver o mundo além dos muros e entendem que a legislação é importante, que a execução dela também, mas que ela por si só não faz nada se o ser humano não estiver disposto a aprender e se corrigir.
Muitas pessoas devem vir aqui e pedir por perdão ou demonstrar arrependimento, e deve ser péssimo pra vocês olharem sempre as mesmas expressões faciais, os mesmos traços. O ser humano replica as ações dos outros, certo? As microexpressões faciais são iguais em todo o mundo, certo? Pois é… eu imagino.
Mas eu não estou vindo dizer que não fiz. Eu não estou vindo falar por falar sobre esse assunto. Eu estou colocando em risco algo muito importante pra mim, porque eu recebi orientações de colegas advogados que diziam que isso ia ser um grande problema pra mim e que eu não deveria de forma alguma comparecer aqui sem um advogado muito bom mesmo (e que não era ele, risos). Mas eu vim.
Aqui estou eu. Sendo burra mais uma vez, talvez. Me tornando motivo de piada na copa da Polícia Federal como uma louca metida a intelectual que faz vídeo atendendo golpista e zoando com a cara deles.
Ah, é importante salientar: este texto vai para a rede social. Pra quê? Pra eu promover a minha imagem. Sim, as pessoas gostam de pessoas que fazem esse tipo de coisa. Se eu ganhar pouco like, eu vou ficar muito chateada. Espero que o senhor tenha se perguntado do porquê eu quero promover minha imagem. Não, né?
O subtexto que deve estar na sua cabeça eu não quero fazer nem ideia, me desculpe, Doutor. Mas bom, eu quero promover minha imagem porque, nos dias de hoje, para conseguirmos alcançar mais coisas, precisamos ter uma boa imagem nas redes sociais.
Eu não quero um bom emprego, nem quero ser vereadora da cidade. Eu não quero bolsas caras e joias caras. Eu quero o básico: umas roupas estranhas pra todo mundo ficar se questionando de que planeta eu vim, um monte de anel e cordão tudo de prata, uns tênis legais — não precisa ser daqueles muito caros não… mas tênis confortável é importante, pô.
Daí eu quero uma banheira no banheiro — isso é relevante na vida do ser humano — e quero uma casa bem imensa pra minha família inteira. Cada um vai ter um quarto, mas aí é onde começa: eu não quero pra mim, necessariamente, eu quero pros outros.
Eu fico pensando: será que depois que a pessoa começa a ganhar dinheiro, ela começa a querer coisas maiores? Porque eu não. Eu sempre quis ter uma Pajero Dakar ou uma Hilux fechada. Desde a minha primeira moto, já era ela que eu queria, e eu nunca desejei nenhum outro carro. Nenhum na face da Terra. Será que, se eu ganhar um monte de dinheiro, eu vou passar a olhar pra uma Ferrari e querer ela?
A gente sempre quer mais? Às vezes eu fico nessa dúvida. Até porque eu não posso ser hipócrita e dizer que eu nunca vou mudar, né? Mas eu sei o que eu quero hoje e, hoje, eu quero tentar fazer do mundo um lugar melhor.
E eu não sei como fazer isso. Então eu vou fazer com as ideias que vêm na minha cabeça, que me dizem: “com isso, você vai fazer do mundo um lugar melhor”. E daí eu faço.
Tipo essa merda de carta que eu estou lendo quase que contra minha vontade agora, continuando apenas por uma força superior a mim que não me deixa parar.
Será que eu sou esquizofrênica, Dr.? Se assim for, não poderei ser condenada, pois estive sempre sob efeito de alucinações, será? Não ligo se o que eu penso não fizer sentido pra vocês. Pra mim, faz.
E, nesse momento, eu preciso ser egoísta, porque existem pessoas que dizem que eu mudei a vida delas — e eu rezo pra acreditar que aquilo é mentira, que ela, por alguma razão ou interesse, está falando pra me agradar — mas eu estou começando a acreditar…
E, quanto mais eu acreditar, mais eu acho que irei me submeter a coisas que vão me expor demais, e isso é muito assustador pra mim. Então eu espero que me entenda. Espero que consiga ver além das explicações simplórias que sua mente e seus colegas vão corroborar.
Eu nunca mais farei o que eu fiz. A minha sentença foi dada por mim mesma.
E se você se perguntar: “E se todas as pessoas fizerem isso? E se isso se tornar praxe aqui na delegacia agora? Todo mundo vai querer ler uma carta pro delegado?” Ahhh, caralho, “quem me foder me beija”, como diria Capitão Nascimento — com todo respeito, delegado — eu precisava tentar te tirar um sorriso no meio disso.
Mas é um risco que, às vezes, precisamos correr. Será que existem tantas pessoas loucas assim no mundo? Além disso, seu trabalho pode acabar dificultando um pouco mais, mas com certeza isso vai te trazer muita evolução. Sentir o frio na barriga por estar fazendo a coisa certa é muito bom.
Eu te agradeço por me ouvir falar, Doutor. Eu não queria ter me estendido tanto, pois eu sei que seu tempo é precioso. Quando enviei uma carta parecida com essa pra vigilância, me disseram que aquilo não era defesa. A minha defesa não era defesa. Eu falei bastante coisa, viu? Mas foi irrelevante. Geralmente, é. Eu espero que algum dia não seja…
São Paulo, São Paulo, 01/08/2025. 04:34 da manhã.
Com as janelas abertas pra sentir o frio de 9º e medo misturado com coragem.
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